Os meninos tristes de Roald Dahl e tantos outros


Professor, ouviu? Um peido para si...

       Depois de mandar meia escola para o .....alho, de ter brigado com a outra metade da escola, depois de ter sofrido horrores inenarráveis, de ser ter submetido às maiores torturas, este nico de gente lembrou-se de rematar assim ao ser expulso da sala de aula, mais uma vez, garantidamente, por péssimo comportamento. E fazemos o quê? 
         Em final de ano letivo, quando nos separamos daqueles alunos que acompanhámos durante um ciclo, aqueles com quem convivemos diariamente, que vimos crescer um bocadinho, que nos conquistaram o coração, que nos puseram os cabelos em pé, que nos levaram às lágrimas ou ao desespero, miúdos tão diferentes uns dos outros, com percursos tão difíceis... e que se sentem sem poderes, mágicos ou não, para fugir a um destino que lhes foi traçado e para o qual não foram tidos nem achados.
      Chegados aqui, decidimos quem «passa», quem «chumba» quem vai para o «vocacional»... Decidimos, forma verbal poderosa. Um grupo de professores decide sobre a vida de miúdos, miúdos que não têm (tantas vezes) uma família que suporte as nossas decisões. E quem somos nós para decidir o destino seja de quem for? 
        Meninos entregues a instituições, à guarda de «funcionários» que não os «conhecem», com quem pouco convivem, e que têm o poder de decidir sobre o que será (?) melhor para eles...
          Dá que pensar, não dá? 

A POBREZA ENVERGONHADA!
PODE ESTAR AO NOSSO LADO!

O Diário do Professor Arnaldo – A fome nas escolas

         Ontem, uma mãe lavada em lágrimas veio ter comigo à porta da escola. Que não tinha um tostão em casa, ela e o marido estão desempregados e, até ao fim do mês, tem 2 litros de leite e meia dúzia de batatas para dar aos dois filhos. Acontece que o mais velho é meu aluno. Anda no 7.º ano, tem 12 anos mas, pela estrutura física, dir-se-ia que não tem mais de 10. Como é óbvio, fiquei chocado. Ainda lhe disse que não sou o Director de Turma do miúdo e que não podia fazer nada, a não ser alertar quem de direito, mas ela também não queria nada a não ser desabafar. De vez em quando, dão-lhe dois ou três pães na padaria lá da beira, que ela distribui conforme pode para que os miúdos não vão de estômago vazio para a escola. Quando está completamente desesperada, como nos últimos dias, ganha coragem e recorre à instituição daqui da vila – oferecem refeições quentes aos mais necessitados. De resto, não conta a ninguém a situação em que vive, nem mesmo aos vizinhos, porque tem vergonha. Se existe pobreza envergonhada, aqui está ela em toda a sua plenitude. Sabe que pode contar com a escola. Os miúdos têm ambos Escalão A, porque o desemprego já se prolonga há mais de um ano (quem quer duas pessoas com 45 anos de idade e habilitações ao nível da 4ª classe?). Dão-lhes o pequeno-almoço na escola e dão-lhes o almoço e o lanche. O pior é à noite e sobretudo ao fim-de-semana. Quantas vezes aquelas duas crianças foram para a cama com meio copo de leite no estômago, misturado com o sal das suas lágrimas…Sem saber o que dizer, segurei-a pela mão e meti-lhe 10 euros no bolso. Começou por recusar, mas aceitou emocionada. Despediu-se a chorar, dizendo que tinha vindo ter comigo apenas por causa da mensagem que eu enviara na caderneta. Onde eu dizia, de forma dura, que «o seu educando não está minimamente concentrado nas aulas e, não raras vezes, deita a cabeça no tampo da mesma como se estivesse a dormir».
         Aí, já não respondi. Senti-me culpado. Muito culpado por nunca ter reparado nesta situação dramática. Mas com 8 turmas e quase 200 alunos, como podia ter reparado?
           É este o Portugal de sucesso dos nossos governantes. É este o Portugal dos nossos filhos.


De um amor e uma cabana à CPCJ, um caminho trilhado...

           Caminho trilhado, passo a passo e anunciado. Não se pode dizer que se foi apanhado desprevenido, de calças na mão. Não. Até porque as instituições demoram tanto, mas tanto tempo a atuar, que só mesmo quem não quer ver não vê! Normalmente, os miúdos não veem! E ainda bem. Não há pior, porque também não conhecem melhor. 
               É Natal. Natal é família, amigos, amor, partilha e respeito. Mas há quem não tenha Natal, porque o recusa, não o sente, porque o sofrimento que sente e espalha é tal que não deixa espaço para mais nada. E vai-se trilhando o caminho, passo a passo, do sofrimento ao desespero, à incapacidade de agir ou sequer de reagir e é assim que mais dois meninos passam o Natal, este Natal e, sabe Deus, quantos mais, longe, sós, perdidos no meio de uma tragédia anunciada. 
                 Resta pensar que talvez não passem fome ou frio, que deixem de ouvir gritos e de «apanhar», de assistir a tudo o que os levou a uma qualquer instituição, uma entre tantas outras.
                 Não, não tenho a minha consciência tranquila. Não, não fecho os olhos, como quem não quer ver ou saber. Não. Sinto uma tal revolta, uma tal raiva, uma angústia que me sufoca, uma dor que não passa, uma impotência...








          A «sorte» dos meninos tristes de Dahl é que, no final, se tornam meninos felizes, castigam-se os maus, acaba-se com eles, de uma forma ou de outra. O azar de todos os outros é que não há magia que chegue, gigantes heróicos ou professoras simpáticas que lhes ponham um fim à tristeza...
          Alternativas? Talvez... Instituições? Não funcionam. São, na sua maioria, dependentes do Estado, de funcionários públicos com horários incompatíveis com a vida escolar das crianças! Quantas estão entregues a essas instituições e não convivem com os seus (supostos) encarregados de educação, abandonados a si próprios, sem conseguirem um abraço, um afago, ou mesmo um abanão, quando é necessário!
       É verdade que muitos estão bem melhores do que estavam, comem, dormem quentes e confortáveis, e podem andar asseados, o que nem sempre acontece, porque não os acompanham o suficiente.
          Conheci duas gémeas deixadas ao sol alentejano para morrer... salvaram-se, graças, provavelmente, a Deus e a algum vizinho atento. Uma menina linda de olhos azuis, sempre inflamados, apanhou uma tareia de vassoura porque, ao pôr a mesa, com dez anos, não soube distinguir o prato de sopa de um prato raso. A comida nem sempre chegava para ela, os irmãos mais novos estavam primeiro. Noutro caso, primeiro também estava a filha da mulher do pai, ele comia o que houvesse, se  tivesse sobrado alguma coisa depois de terem comprado o tabaco, o vinho e a droga. Foi parar ao hospital, ficou internado mais de uma semana, sem razão aparente, só porque gritava que lhe doía, de certeza, a alma. Outra, epiléptica, abusada sexualmente vezes sem conta pelo condutor do transporte que a levaria, sã e salva, a casa. A vergonha dos pais era maior, pelos vistos, que o sofrimento dela. Só uma denúncia anónima parou com aquele inferno, graças às inconfidências de que as amigas são capazes. Outro foi encontrado no caixote do lixo, criado por alguém que se assumiu como mãe, mas os traços dos abusos estavam lá, um desvio mental acentuado...  E aquele de três anos cujo avô diz à mãe «leva-o contigo, senão um dia ainda morre às mãos da avó» de tanto apanhar!
         Podia continuar, mas não me apetece, é custoso, enjoa, enjoa sobretudo saber que há quem perpetue este sofrimento, e que os responsáveis, raramente, são devidamente castigados. Custa saber que aqueles a quem estas crianças ficam entregues são tantas, demasiadas, vezes tão irresponsáveis que contribuem para o abandono escolar, para a discriminação, para o insucesso enquanto seres humanos, abusados que, por norma, se tornam abusadores, mal-amados incapazes de amar, com um futuro comprometido desde sempre.
          Não se pense que são só os maus tratos físicos que conduzem a esta tragédia humana, os outros, mais subtis, causam danos tão grandes ou maiores! O falso conforto, a angústia, o ser-se desvalorizado a toda a hora, sentir que não se vale nada, ser-se desprezado, o medo... consegue-se imaginar viver assim? Dá que pensar, não dá? Mas não chega, pensar não chega, é preciso agir, fazer a diferença, mudar atitudes e agitar consciências.
Eu sei do que falo. Sei muito bem, bem demais.



               Estamos todos aqui, amigos de sempre ou de agora, reais ou virtuais, cada um com o seu percurso de vida, com o seu projecto de vida, mais ou menos feliz, mais ou menos satisfeito, mais ou menos completo. Mas por detrás das fotografias que publicamos no nosso perfil, as músicas que partilhamos no nosso mural, bem como os estados de alma que vamos "despejando", há histórias de vida terríveis, dramas profundos de tristeza e solidão incomensuráveis...
Lido diariamente com meninos tristes, felizes, com fome, sem família, ou com famílias que não os merecem, meninos que passam frio, que têm medo, que choram nas aulas porque as famílias se separaram. Meninos que se foram tornando devagar, devagarinho, mas mesmo debaixo dos nossos olhos, naquilo que já não podemos evitar! Mas que esteve sempre ao nosso alcance prevenir.
         Somos todos responsáveis pelo estado a que deixamos as nossas crianças chegar... As dificuldades financeiras não justificam tudo! Nunca poderão justificar a falta de amor e é essa falta de amor a responsável pelo desastre que é a vida de milhares de crianças.
          Imaginar que isso pode passar-se ao nosso lado, imaginar que convivemos com pessoas que maltratam os seus, imaginar que isto se repete numa base diária em que nada, mas nada de nada, faz com que o sofrimento acabe é terrível!
          Há instituições que, supostamente, cuidam dessas crianças! Mas digam lá, será que nós, amigos virtuais ou reais, quereríamos ver os NOSSOS meninos entregues a essas instituições, ver os NOSSOS meninos retirados à família! Sim, porque não são só os mais desfavorecidos que sofrem e que são vítimas dentro das famílias. E, imagine-se, FAMÍLIA, CASA, esses espaços sagrados onde nos devíamos sentir seguros, para onde deveríamos sempre querer voltar, são por vezes os lugares mais perigosos para se viver...
          Não tenho muitos amigos, apesar de no meu perfil dizer que tenho...    
            Não tenho a família perfeita, nem sei se tal existe!
          Fui uma filha rebelde, a roçar a má educação muitas vezes, e senti-me, muitas vezes também, mal-amada!
         Mas fiz o possível para não fazer distinções entre os meus filhos, respeitando a maneira de ser de cada um. Só eles sabem o que sentiram e sentem. Mas mal-amados nunca foram... Isso eu sei! Nunca quis perpetuar o que me magoou enquanto miúda! E tenho um lema de que não abdico: NÃO FAÇAS AOS OUTROS... toda a gente conhece!
          Faço daqui um apelo... Está só nas nossas mãos evitar que os nossos meninos fiquem estragados para a vida toda. Tem de haver uma forma de parar com este sofrimento! TEM DE HAVER!




“A little magic can take you a long way.”



          Para aqueles que ficam muito chocados com as histórias de Roald Dahl, em que as avós desaparecem graças a um remédio maravilhoso, ou em que umas repelentes tias são devidamente castigadas por infligirem terrores e sofrimento a uma criança, ou ainda em que os pais de uma criança cujo elevado nível de inteligência é desprezado ao ponto de estarem dispostos a abandoná-la, tenho só uma dica a dar: maus tratos!
          Dizer aos meninos que as velhinhas são todas amorosas, que as avós são todas muito queridas, que a família é o nosso refúgio ou que os pais sabem sempre educar é uma mentira deslavada! Existem lares/refúgios... essas instituições para meninos como a Matilda, o George ou o James, meninos retirados à família, meninos entregues a familiares que abusam da sua condição de tutores/educadores e que causam sofrimentos horríveis aos mais débeis, frágeis, desprotegidos!
Estes miúdos têm recursos que os outros não têm, socorrem-se de magias, de poderes que desenvolvem assim, de repente, transformam-se e enfrentam os seus maiores medos, vencendo-os sempre no final. Se os nossos meninos de verdade conseguissem fazer o mesmo, conseguissem enfrentar quem os maltrata, os abusa, os ignora, se conseguissem transformar-se em desenhos animados amigos de aranhas, joaninhas e gafanhotos, se conseguissem ser ouvidos...
           Por isso adoro quando a avó toma o remédio e desaparece depois de tanta prepotência e maldade, adoro quando as tias do James são enxovalhadas publicamente por quererem agredir o James, um menino triste que perdeu o pai e a mãe, por isso adoro quando a Matilde é adoptada pela sua querida professora que a liberta de uma família que a despreza, a ignora e a maltrata.
           Não, não temos de ser complacentes com aqueles que, sendo da nossa família, nos abusam e nos maltratam! E sim, há finais felizes, aqueles em que os malvados são devidamente castigados, porque nem todas as avozinhas são amorosas, nem todas as tias generosas, e nem todos os pais capazes!