Rascunhos

     Nunca pensei que tal pudesse acontecer, mas aconteceu, como diz o Domingos, o espaço é público e qualquer um pode ler...
      Depois de publicar uma das minhas muitas histórias, a propósito da campanha do Elísio, recebi dois mails inesperados em forma de comentário ao meu post. Senti-me obrigada a apagar parte do post, o texto, porque não quero alimentar conversas estéreis e, eventualmente, prejudiciais à imagem dos intervenientes. Mas publico aqui, neste espaço, mais resguardado, não só o texto como os comentários:


Nota de rodapé:
      Há uma carrada de anos, quando a literatura infanto-juvenil estrebuchava por falta de quem investisse na leitura e nos leitores, apareceu Alice Vieira, Rosa, minha irmã Rosa foi um sucesso, nada de pasmar num universo moribundo, cheio de carências, onde brilhava Sophia e pouco mais...
           Penso que o sucesso sobe rapidamente à cabeça de quem o alcança, não é um pecado nem um crime, mas pode ser uma chatice (há uns anos, Marina Alberty teria dito, chatice não, aborrecimento...)! Adiante! Vieram outras obras, mais chatas umas que outras, mas tudo no mesmo registo. Se no princípio da minha carreira lia com algum entusiasmo Alice, nos anos 90 já não aguentava! E, sei lá como ou porquê, um dia, em Óbidos, alguém da direção vem chamar-me porque a Alice Vieira estava na nossa escola e não tinha público. Não fui tida nem achada! Mas, apesar de rebelde, sou também e ocasionalmente bem mandada. Lá fui para a biblioteca com uma carrada de putos que nunca tinham ouvido falar da dita Alice. A senhora ficou possessa, com carradas de razão, mas não fui eu que a convidei! Nem sei por que razão quem a convidou não estava, mas, por respeito, lá a recebi e ela recebeu-me com uma tal má-vontade. irritação, deselegância e desprezo que até hoje não sinto vontade nenhuma de a ler. 
         Mais tarde, numa Feira do Livro em Lisboa, a Inês resolveu que queria um livro da dita senhora. Ora nada me ocorreu senão dizer «estou farta da Alice Vieira!», claro que com o meu nível de pontaria, era dia de autógrafos, e lá estava ela mesmo ao meu lado, com o mesmo ar de ofendida que lhe conheci uns anos antes...
          Ainda bem que ela faz lista com o Elísio! Ainda bem que ela não sabe quem eu sou, muito menos que sou prima dele! :-)


alice vieira deixou um novo comentário na sua mensagem "Se alguma vez imaginei ter o Elísio nas mãos!":

Deve estar a fazer confusão, nunca fui a nenhuma escola nem a nenhuma biblioteca de Óbidos e não sou nada do género de fazer fitas se há pouca gente --o que, digo-lhe, até hoje nunca aconteceu, e vou a escolas e bibliotecas praticamente todos os dias durante o ano lectivo...Sou bem disposta por natureza, como sabe toda a gente que me conhece.
mas pronto,uma confusão qualquer pessoa faz...
Um abraço
ALICE VIEIRA 



Segunda nota de rodapé:
    Tenho de pedir desculpa, coisa que não me custa... Mas as desculpas evitam-se e eu não as evitei. Nunca me passou pela cabeça que a Alice Vieira (que me merece o maior respeito) me lesse, mas leu! 
      Não vou entrar em «polémicas», as minhas memórias até hoje não me traíram...



M. João deixou um novo comentário na sua mensagem "Se alguma vez imaginei ter o Elísio nas mãos!":

Esta história não "bate" nada com a Alice que eu conheço. Por acaso, não estará a fazer confusão? Um abraço




  Terceira nota de rodapé (eliminadas que foram as duas primeiras para evitar constrangimentos e mal-entendidos):
Optei por eliminar deste post o meu texto. Não pretendo incomodar ninguém, muito menos o Elísio, a quem peço desculpa...
 Vai-te mesmo a eles! 

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Vinte e nove anos de trabalho. Hoje. Se alguma vez pensei em ser professora, foi quando, ainda bem pequena, era boa aluna, apesar de não saber o que eram os  «devoirs» (daí que nunca os fizesse) e ter precisado de um esclarecimento por parte do avô Luiz, e quando dava abraços gigantescos à minha adorada «maîtresse» das 1ª e 2ª classes, numa época em que dar abraços significava ser graxista… Deixei, obviamente, de os dar, bem como de achar que alguma vez poderia enveredar por esse caminho, o da escola. Não me parecia que alguma vez encaixasse!
Não nasci com o rabo virado para a Lua e todas as minhas aprendizagens foram feitas depois de muito sofrimento, muitas cabeçadas, muitos desgostos. Havia aqueles para quem nada era difícil, eu precisei de muitos empurrões, explicações. Deixei muito rapidamente de ser boa aluna, nunca achei que me fizesse feliz, deixei andar até, finalmente, chumbar. Havia coisas bem mais importantes, os amigos, os fumos, as faltas às aulas, algumas pielas, os namoros, o desafiar a autoridade, viesse ela de onde viesse! Como é que alguém assim poderia alguma vez tornar-se numa professora? Mas aconteceu! Não havia outra saída profissional quando acabei a Fac, era a época dos «miniconcursos» e assim tornei-me paraquedista, como as nossas muito simpáticas colegas «definitivas» chamavam às provisórias.
Nessa altura, de facto, o Jaime até tinha razão: «Maria Helena, o que tu fazes para não ires trabalhar!» isto depois de eu ter sido atropelada em 88, grávida do Afonso! Mas tinha razão, o gosto era pouco, as imensas preocupações com a minha recém-formada família e o ordenado era o que me movia.
Mas foi exatamente a minha família que me ajudou a corrigir o meu percurso, o lema «não faças aos outros o que não queres que te façam a ti» bateu forte quando os meus filhos começaram a percorrer o mesmo caminho dos meus alunos. Se não tinha vocação, o espírito de missão, esse, sempre o tive. Também ódios de estimação e amores de perdição. Tem sido sempre assim, em tudo, na vida e na escola.
Este ano, aos vinte e nove, decidi que estava na altura de fazer uma pausa. Estou farta! Os últimos governos têm dado cabo da Escola, o ambiente que se criou nas escolas é insuportável! As intrigas, a maledicência, as invejas, as mentiras… A suposta avaliação de professores, isenta, objetiva, justa, arrasou os alicerces mal fundados de uma classe desunida, com diferentes níveis de formação e crivada de gente muito malformada que nunca deveria poder dizer que é professora.
As evidências deram cabo das aulas e das atividades feitas pelo prazer de fazer e de bem-fazer. De repente, quem faz, porque gosta de fazer e porque faz bem, só quer é «evidenciar-se», imagine-se! Se se faz uma festa de elevado nível, faz-se «para as elites», Publicamos um livro, «lá está ela a evidenciar-se!» Chega! Estou farta!
Adoro o que faço, cada vez mais! Onde me sinto bem é na sala de aula, não é na sala de professores! De quem eu gosto é dos alunos, não é dos colegas, apesar de ter duas muito queridas amigas e algumas queridas colegas. E dou abraços aos meus alunos, muitos, sem que eles corram o risco de serem chamados graxistas…
Por isso, neste dia de aniversário, sob o mau presságio de ver o modelo de escola alemão aplicado nos próximos tempos, correndo o risco de ver o 2º Ciclo desaparecer e com ele o meu trabalho, deixo aqui o meu muito especial agradecimento aos meus filhos, Inês, Afonso e Domingos que me fizeram ser melhor pessoa e melhor professora (apesar de o Domingos achar que eu dou notas boas demais…) e aos meus muito queridos alunos, aqueles que me fizeram crescer, chorar e amar o que faço, tantos deles meus amigos facebookianos, eles sabem bem quem são!

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Mar azul, vento frio
ondas rebeldes,
gaivotas em terra.
Imagens que ficam, imagens...
O sal e a alma lavada
esfregada na areia molhada.

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Uma escolha não acertada

Não gosto de mentiras
Não gosto de intrigas
Não gosto de confidências
Não gosto de segredos
Não sou imparcial
Não sou isenta
Não calo injustiças
Não defendo porque sim
Não defendo porque não
Não estabeleço limites
Não defino regras
Não reconheço galões
Não faço minhas as palavras dos outros…
Arrependo-me tantas vezes
Voltaria atrás, se pudesse
Corrigiria o mal que fiz
Faria melhor desta vez!
Mudaria como o vento
Embalava-me no mar
Gritaria ao ar que me leve
Porque já não posso mais.
Não sei agradar
Não sei ser de outro modo
Sei ser eu, assim, com pressa
Com paixão, com amor
Com vontade de arrasar
O que nos esmaga,
O que nos prende…

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 Memórias

Memórias…
Rasguei-as todas
Como se de papel se tratasse.
Fotografias, cartas,
Postais e bilhetes,
Nada restou, nem sombra ficou!
Nem juras, promessas,
Saudades escritas,
Nada… como se nada existisse.
Mas rasgar é fácil!
É garantir que não se vê,
Não se lê! Mas não destrói!
Não apaga, não!
Fica cá tudo dentro de nós,
Guardado, fechado no que é nosso
E só nosso. Nosso e de mais ninguém!



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PROMESSAS, PROMESSAS

Prometo continuar a ser-te fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença,
amando-te e respeitando-te todos os dias da minha vida.
Prometo continuar a ser tua amiga, a sentir prazer por estar ao teu lado pelo simples facto de tu seres a pessoa que amo, que melhor me conhece e que me acompanhou no meu sofrimento e nas minhas alegrias.
Prometo que te seguirei e que te acompanharei, nos dias bons, nos maus, nos difíceis e em todos os outros.
Prometo que continuarei a ser tua, só tua e que nunca direi mal de ti.
Prometo continuar a aquecer-te os pés e a alma.
Prometo amar-te até ao fim.



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 A Minha Escola

            Esta é uma escola, ponto de chegadas e de partidas, de encontros e desencontros, de amores e desamores, de crescimento… Como qualquer outra escola!
            Esta é uma escola, mas não é a minha escola.
            Aqui passo uma grande parte dos meus dias, cruzo-me diariamente com centenas de pessoas, miúdos e graúdos, alunos, os meus colegas e funcionários, mas os nomes deles, tantas vezes, não os sei. Estamos anos a conviver com tantas pessoas que nunca chegamos a conhecer, realmente. E é estranho, sobretudo por ser um espaço de gente!
            Aqui trabalho, tenho um nome e uma missão, um objectivo: levar os meus alunos mais longe, custe o que custar, doa a quem doer… E já vi tanta dor, dor que não se imagina! Mas também finais felizes, nomes que nunca mais se esquecem, expressões de alívio e de felicidade que nos preenchem a alma e a vida.
            Aqui partilho o meu saber, aprendo e dou a aprender, abro caminhos à espera de revelações. Aqui partilho alegrias e tristezas, vidas e martírios, glórias e decepções. Aqui aprendo a vida, feita de tantos desalentos, de fome e fúria, de famílias em farrapos. Aqui soam risadas, brincadeiras felizes, correrias alegres, aqui voam bolas, deslizam berlindes, festejam-se alegrias e choram-se tristezas.
            Aqui dou a ler mais, recebo mais a ler! Construímos uma rede de aventuras, risos e sorrisos, lágrimas e mistérios, amores desencontrados que viveram felizes para sempre. Aqui blogo! E adoro blogar no Leituras e Olhares, que poucos olham…  
            Aqui vivi o início do meu cancro, com lágrimas partilhadas nas poucas aulas que dei nesse ano, mas foi aqui que recomecei, que recuperei o gosto pelo meu trabalho, graças a algumas pessoas excepcionais que me receberam de alma aberta apontando o meu caminho quando me sentia insegura, apoiando as minhas aventuras, empurrando-me quando eu não queria ir…
            Aqui encontrei a amizade, real, sentida e vivida!
            Mas esta não é a minha escola…
            Na minha escola as pessoas são delicadas e afáveis.
            Na minha escola as pessoas cumprimentam-se.
            Na minha escola as festas são para todos.
            Na minha escola não há invejas…
            Na minha escola partilha-se!
            Na minha escola as pessoas sentem-se bem.
            Na minha escola descomplicamos e ajudamo-nos uns aos outros.
            Na minha escola fazemos, sabemos e sabemos fazer, fazemos por amor.
            Esta ainda não é a minha escola.



 Helena Salvação Barreto
in Antologia Inverno
Pastelaria Studios


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Há sonhos esquisitos! Este, garantidamente, era-o. Um vulto com um capacete de guerreiro medieval assombrou-me duas noites seguidas. Havia qualquer coisa conhecida na figura que, no sonho, não conseguia identificar, mas havia lá qualquer coisa, uma cor de olhos, um olhar…
E o 22 decidiu, durante uns tempos, mudar de rota, e por motivo de obras no seu percurso habitual, invadiu os Olivais Sul. Calhava-me lindamente, ia para o Britânico e assim, em vez de apanhar o 10 na paragem da praça e sair na Rotunda seguia diretamente para lá! 
Ora isto foi o que fiz, e como sempre, ia para o andar de cima, sempre mais arejado e menos povoado, mas daquela vez não, uma galhofa imensa já se ouvia nas escadas e quando acabei de as subir, dei de caras com os olhos que me perseguiam há duas noites. Ali, assim de repente, um cruzar de olhares que me fez corar, que me deixou incapaz de uma reação, só o baixar dos olhos e procurar refúgio no banco mais próximo.
Aqueles risos eram contagiantes e a simpatia sempre foi o seu forte, daí que, mesmo sem nunca nos termos falado no liceu, ele não deixou de me sorrir e de dizer um olá-adeus à saída. Mais um momento de mudança de cor e a felicidade de receber um sorriso e uma palavra.  
Quinze anos e uma paixão assolapada! Nem o nome dele eu sabia. Não sabia nada de nada! A não ser que era ele. 
Contei, claro, às minhas amigas! «Como é que se chama?», «Mas quem é?», «Vamos lá falar…» Não, não sei, não…Sei lá! Às tantas a curiosidade foi mais forte, vimo-lo a ir ao bar, aquela confusão do quem primeiro chega, primeiro se avia, do fura até chegar lá, em que os mais altos se safavam sempre melhor, porque as senhoras percebiam sempre o que eles queriam e porque, tendo os braços mais compridos, levavam tudo com mais facilidade… e ele era mais alto. 
O momento era o ideal, e nós, miúdas atrevidas, cá em baixo gritávamos para lá, para o bar «Manel!», «João!», «Rui!», «Carlos!», «Luís!», «Zé!» e ele, finalmente, olhou! Era Zé! O nome já o tínhamos!
Faltava a outra parte, a mais difícil, dada a vergonha imensa que eu ia sentindo. Mas a Romy, rapariga desprendida, mas comprometida, por isso mais desprendida ainda em relação à paixoneta da amiga, tomou em mãos o assunto, ora não ia deixar uma questão de amor em mãos alheias, aquilo era fácil de resolver, era só dar dois dedos de conversa, fazer as apresentações e deixar que a coisa se resolvesse por si própria! Matchmaker, «Well, somebody has to arrange the matches», tinha visto há bem pouco tempo Um Violino no Telhado, a música vinha mesmo a calhar! «He's handsome, he's tall, that is from side to side. But he's a nice man, a good catch, right? Right. »
Acontece que o papel foi tão bem desempenhado que o pobre foi induzido em erro! Convenceu-se que ela estava mais ou menos a declara-lhe o seu amor. Às vezes, os rapazes conseguem ser mesmo bons em não perceber! Até irrita! Deve ter sentido aquele balde de água fria: «Não sou eu! Pensavas que era eu? Não! Não, é aquela minha amiga, tu sabes quem é, gosta imenso de ti…» 
Ainda levou uns dias, se calhar para se recompor, nunca falámos disso, para mim era humilhante, para ele um embaraço, por isso ignorámos a coisa e seguimos em frente. Convidou-me para ir a casa dele, numa tarde de março, dia 19, dia do Pai! Estava lá com os amigos inseparáveis, os dois do costume. Para apreciação, certamente! Ficámos amigos, mais de um do que de outro, e o namoro pegou. Foram quase dois anos. Passeios matinais pela Baixa, ducheses na Suíça, imperiais no Tábuas, tardes de garagem, cinema às vezes, e Stones como música de fundo. Sempre a música, a guitarra, os sonhos, a crítica para o Diário de Lisboa. Crescemos os dois, um com o outro. «Vocês nunca se zangam?», dizia o Pedro. Não! Porquê? Não havia razões…
Num Natal houve um concerto de uma banda amiga no PAV, fiquei de lá ir ter, depois de fazer as últimas compras em Alvalade. E fui. Quando lá cheguei não gostei do que vi, mas não disse nada. Ficou sempre comigo aquela imagem de alguém que se abraçava a quem não devia, e depois o ar culpado, mas preferi o silêncio. 
E o tempo foi correndo, ele teve de ir trabalhar e eu fui para o 6º ano à tarde! As rotinas foram-se mantendo, os encontros, os telefonemas de horas e horas… 
Era fim de semana, um sábado cheio de sol, um dia lindo para andar de barco, e deixar a casa por nossa conta. Mas ficou tudo estragado. Levantou-se um vento, nós não demos por ele, e o barco não zarpou. E a maior humilhação por que passei na minha vida deu-se nesse dia. Apanhados num regresso a casa inesperado… Ter de baixar o olhar, sentir a reprovação toda em cima de mim, nem poder abrir a boca para pedir desculpa… A partir daí já pouco havia a fazer, estava definitivamente comprometido este namoro. Não era assim tão forte, eu… 
Chegou o verão, ele foi fazer o Inter Rail e eu, como sempre, fui para a Várzea. Nunca me dei bem com a distância e a humilhação não ajudou muito. Ainda estivemos juntos no seu regresso da viagem, foi visitar-me à Várzea, mas chegou setembro e a Festa do Avante. E no meio daquela multidão encontrou-me para eu lhe dizer que já não o queria mais.

«E o que foi feito de ti// E o que foi feito de mim// E o que foi feito de ti// Já me lembrei// Já me esqueci...»


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Palcos
Há uns bons anos, estava eu em casa quando o telefone tocou. Era um «agente teatral» da Barraca, o melhor teatro à época a seguir à Cornucópia, a convidar-me para integrar a equipa.
Estranhei, mas pouco… Devia ter estranhado mais… Mas, apesar de não gostar de teatro, adoro representar, adoro a capacidade de me transformar naquilo que não sou, que não sou capaz de ser, de encarnar vidas… e a conversa deixou-me num entusiasmo difícil de controlar! Já não me lembro no que é que resultou a dita conversa, mas lembro-me bem do tom sério e «idóneo» do caramelo que me telefonou. Dois minutos depois veio o telefonema que me esclareceu, «nem acredito, fazes lá ideia, diz lá, imagina…» e do outro lado galhofa até dizer chega! Mesmo burra!
Caí que nem uma patinha! Mas não se pense que fiquei chateada por terem gozado literalmente com a minha cara! Não foi isso, foi mesmo a desilusão de não ser verdade…

Acabei por me tornar professora, outra forma de ser atriz, encarnar o que não sou, não há melhor «entertainer» do que um professor! Um palco partilhado, um público garantido, às vezes sucesso, outras insucesso! E que façam o que eu digo, não o que faço ou o que fiz, porque nem sempre o exemplo é a melhor lição!



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Toca-me… 


Há muito, muito tempo, ainda a igreja era um convento e a vida vivida em Évora corria devagar ao som dos sinos. 
Nesse tempo em que acabou a escuridão, em que as trevas se abriram para dar luz ao mundo, a música ganhou forma com a construção de um instrumento maravilhoso, tão poderoso que elevaria o som aos céus. 
Sou eu, o órgão da igreja de São Francisco. Ao longo dos tempos renovaram-me, fui acrescentado, pintado, melhorado para que o som fosse divino, suave, profundo e doce, assim como as vozes dos monges que me acompanhavam. «Toca, organista, toca! Leva o meu som ao céu… Deixa-me falar com os anjos, acalmar a dor dos que sofrem, lavar a alma dos tristes, iluminar os rostos dos meninos que me ouvem! Toca, organista, toca!» 
E o som inunda o espaço, eleva-se através dos tubos, e as mãos do organista percorrem as minhas teclas, que conduzem o som aos tubos, às minhas dezasseis flautas, libertando os timbres, tantos… O do contrabaixo, do tambor, do flautado aberto e tapado, do clarim, da oitava real, e o da voz humana que se mistura com a trombeta real, a corneta real, o cheio e o cheio, a quinzena, a décima sétima, a dozena, e o silêncio de quem ouve quebra-se perante a grandeza desta sinfonia melodiosa, encantada… «Toca, organista, toca! Deixa-me dizer o que penso, deixa-me falar, deixa que me oiçam! Deixa-me gritar, chorar e rir…Toca, organista, toca!» Cada tecla é única, perfeita, pressionada perpetua o som e o som perpetua a felicidade de se ser amado, de amar! 
 E as gentes vêm de longe e de perto, ao frio, ao calor, de noite e de dia, pobres e ricos, só para me ouvir, no compasso das mãos que se entrelaçam, que me elevam e libertam. «Toca, organista, toca, mostra o que sabes fazer, faz a nossa alma vibrar, leva-me ao céu e ao mar, leva-me às nuvens e à praia, leva-me daqui, leva-me aonde nunca fui, mostra-me do que és capaz, tu e eu, os dois num só! Toca, organista, toca!» 
 E eu cresço, aprendo, vivo, vivo nas mãos de quem me cria, de quem me toca, de quem me estuda e mima compondo para mim, porque quem para mim escreve, escreve para o mundo e o mundo avança com a certeza de que a beleza é suprema e infinita. Mas quando as portas se fecham, quando não vem ninguém, quando o silêncio é profundo e prolongado… 
Quando as mãos não tocam nas teclas, quando o som teima em não sair, então aí fico muito calado, quieto, à espera, à espera daquele instante em que o organista regressa e me devolve a vida, o som e a luz e digo «Toca, organista, toca, toca o que quiseres, toca como quiseres, mas toca, organista, toca!» 

 Um pedido do Rafael
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Memórias corridas...


Ida para os Olivais: Tomás, Titas, Tucha e João Pedro, primeiros vizinhos e amigos.
Ida para o D.Dinis: Isabel Berkemeier, primeira amiga; Cristina do 6º, Ana do Monte, Filipa Mendonça e as manas, Fatinha e Xica, Graça e Teresa Beirão, Cristina do 7º e o irmão, meu colega de turma, a do 8º gamou-me uma camisola, detestei-a! E as gémeas, Luz e São, as gémeas mais diferentes que conheci. O tabaco à borla, dado pela Ana, os cafés à noite no Sorraia, mais tarde no Tó, pouco fui ao Tosta!
O Monte, para além de nós, as miúdas, os Morrison, Carlos e Paulo, o Bexiga, o Tito, o Ju e o Vi, o Toninho Louro, o Joãozinho e a sua Moto Guzzi e o Xangai e o seu carrão! O Tóinas, o Xico Xavier e os seus bons conselhos, a sua música e a do Corisco juntos e ao vivo! A Gilera do Rui Fonseca, a Honda 50 do Anselmo…
A fogueira enorme no meu primeiro Santo António na rua; a Feira Popular e o twister, uma tragédia anunciada; pastéis de nata atirados para o 3º andar pela manhã; as tolerâncias de meia hora nas saídas à noite até às 11h! As idas ao cinema, as festas na cave do Monte, na garagem do Ju; o Tiço, um querido! As irmãs Lobato de Faria, a Babá, com quem, mais tarde, fui ao Ministério da Educação denunciar a venda por 500$ dos exames do Propedêutico (e não me arrependo de o ter feito!).
As idas para as aulas a pé, íamos passando e chamando os amigos, era uma autêntica procissão de bairro, uma romaria até à escola! Era tão bom!
A minha primeira turma mista, a Cristina do 6º, a Raquel Freire, a Quicas, a Xana, que dançava no chão "The House of the rising sun", nos Convívios, o Inácio, Pê Zé, o Manel Malheiro Máximo e o Paulo, Puto estúpido, como o tratávamos, e tínhamos razões para isso! A Rita Cardoso Pires, que me ajudava no desenho à vista no meu segundo 5º ano, sim, porque chumbei, obviamente! Estava a pedi-las há que tempos! Repeti a parte de Ciências e tive a preciosa ajuda de uma explicadora de Desenho a AnaPaula, uma artista com uma paciência interminável! O Tito achava que aquela era sempre uma boa hora para passar à minha janela com a Honda do Anselmo!
O meu primeiro namorado e o meu primeiro amigo… estragou tudo, mais tarde, podia não o ter feito, teria sido muito melhor!
O incêndio na casa do Sandro, as fotografias do Toninho Neto, os passeios de mota, fazer motocross atrás do D.Dinis aos Sábados de manhã com o Fernando Silveira…
O bar do D. Dinis com aqueles sonhos maravilhosos, as suas célebres empadas e o martírio que era chegar à frente e conseguir ser-se atendido; as escadinhas entre o refeitório e o bar, onde nos sentávamos; as cenas de pancada, o Juan, o Paulinho, o Miguel e todos os outros; os grupos que se foram criando, as primeiras separações...
O Zé Pedro, dois anos noutro mundo: os Olivais Norte no seu melhor, o Tábuas, à tarde, o Luís Sambado, o Manucho, o Pedro Sá, o Licas, o Zé Mário…
Os banhos de “rega” nos dias quentes no Vale do Silêncio, onde vi pela última vez o Paulo Anarka, recuperei-o um bocadinho quando encontrei cá, em Évora, o seu irmão, Pedro Rosado.
O Testas, o Pedro Bidarra, os meus amigos do 6º e 7º anos! O Testas, inseparável! A malta da tarde no D. Dinis, Edgar e Fernando Pêra, os manos Rodrigo e … (já me falta um nome!), a rádio na sala de convívio, beba água do chuveiro… sem graça nenhuma! Mas era diferente e novo! A Margarida Sampaio e a Irene Mota Pinto, mãe muito cedo, tal como a minha irmã. Os dramas que se viveram em muitas casas com a droga, relações complicadas, dramas que nunca se resolveram… Tantos! Os afastamentos, os desgostos, as perdas: Ricardo Velha, um estúpido acidente de mota, o Bicos, o Jorge, que já era enfermeiro e que desistiu de viver, as overdoses que foram manchando as nossas vidas e roubando os nossos amigos.
Não tenho saudades, houve muitos momentos bons, mas também feridas abertas que nunca sararam e que nunca vão sarar, por muitos anos que passem. A nossa memória não é curta, apesar do que se diz!
Não conheço a maioria das pessoas que povoam estes grupos que se criaram à roda dos Olivais, bairro que a minha mãe ajudou a criar e a crescer e que me viu crescer. Ou já não me lembro de uns quantos, tal como não se lembram de mim! Estávamos juntos no Liceu e pouco mais, nessa altura éramos todos “amigos”, os miúdos têm sempre montes de amigos, e hoje, adultos, também os temos, apesar de facebookianos, mas tão virtuais como os de dantes!
Lena Vaz

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          Mãe.


          Falta-me o ar...faltam-me as palavras! Um vazio preenchido por memórias que guardo, mas só quero as boas, são essas de que preciso!

           Se pudesse voltar atrás... tanto para mudar, tantas indelicadezas, tanto desperdício! Não me orgulho da filha que fui, deveria ter prestado mais atenção. Levei anos a conseguir uma reconciliação, tantos anos a tentar um entendimento que abafasse os gritos e os choros, as mágoas e as tristezas! Tanto tempo, demais!
            A distância não ajuda nada! Estou aqui, longe, angustiada à espera que precise de mim, mais do que nunca...
            E vêm as memórias, nem sempre as melhores, mas são as que quero escrever, as que vivem em mim! De nós, nós as três.




            Três, todas diferentes, nunca iguais, nem na aparência, nem no trato, nem mesmo nos lugares que ocupam na casa e nos corações da casa.

A mais velha recebe como herança o nome de uma tia, já partida, que deixou saudades, tantas que já o nome apaziguava a alma. Mas foi sempre a mais afortunada, mais talentosa para os estudos, para confidente desta e daquela, até da mãe, mas pouco dada a aventuras, refugiando-se sempre nas suas leituras. Apresentada como a mais velha, a melhor da turma, uma adulta precoce.
A segunda, mais tarde a do meio. Só o nome, meio!!! Ser do meio é ser pior. Tem direito a tratamento diferente, uma filha do meio mãe de filha do meio ganhou o nome do pai, na versão feminina, talvez para servir de consolo a quem nunca se consolou por não ter tido um filho homem.
E chegou o fósforo queimado, sim, pela aparência não surtiu mais nenhuma observação digna de registo! As outras brancas, claras, louras, sabe Deus porquê! Pai e mãe morenos, olhos escuros, pele escura… ah! Há uma trisavó italiana, de olhos claros, sim, é verdade, e os olhos claros até têm muita razão de ser, mas esgotaram-se e eis que aparece o fósforo queimado. E desde então foi sempre assim!
Estranho, ou não!
Três Marias, desunidas, ligadas pela desunião, pela falta de laços alimentada por um proteccionismo exacerbado que minou as relações que deveriam ser as mais perfeitas, as que se geram entre irmãs…
Olhar para as mais velhas e dizer: são as minhas irmãs! Não, as mais velhas não querem misturas com fedelhos, com miúdas chatas, principalmente quando se é a protegida do pai ou a da mãe, com estatuto especial! Esse eu nunca o tive, nem o mereci, nem fiz para o merecer. E não há como dar a volta ao texto, por norma cada um tem o que merece, e quem semeia ventos acaba, mais tarde ou mais cedo, por colher tempestades. As minhas são constantes, os ventos tiram-me o ar, o mar agita-me a alma e a revolta das ondas arrebata-me o pensamento.
Devo, em qualquer altura da minha vida, ter merecido o que tenho, talvez quando chamei urso ao meu pai por estar farta dos berros… Ou ainda por ter tanta vontade de ir a correr contar novidades àqueles de quem gostava que acabava por não deixar “brilhar” a que deveria contar, resultando daí um pontapé no traseiro ou um aconchego mais pesado!
Ou ainda, quando não me calava por ser injusto apanhar por não perceber Matemática, eu tinha de perceber a bem ou a mal, talvez umas chapadas ajudassem! Pingente! Assim que se acabava de jantar e a toalha era afastada dando lugar àquele espaço usado para o ensino, uma vontade inexplicável de ir à casa de banho apoderava-se de mim, até à altura em que, achava eu, já o “explicador” tinha desistido, mas a verdade é que na maior parte das vezes não havia qualquer desistência. A vontade de ensinar era grande e a de me aconchegar com alguns tabefes parecia ainda maior…
Até que desistiu, não valia a pena, eu não queria, se eu quisesse ia longe! Mas não queria por isso não valia a pena insistir. E desistiu de mim. E a vida é assim. No fim de contas, no último dia da sua vida foi com o fósforo queimado que teve de se contentar, não estava mais ninguém em casa, e com muito poucas palavras, como era seu costume, às vezes as poucas eram demasiadas, pois serviam facilmente para o insulto e a desconsideração, só disse que estava mal-disposto e foi-se, não voltou senão para assombrar as minhas noites durante alguns tempos. Agora já não! Mas a mágoa, essa continua a assombrar e não é só nos meus sonhos, ou pesadelos, é mesmo na minha vida!
Ainda houve uma época em que se ligou um pouco mais a mim, na mesma época em que a minha irmã mais velha percebeu que eu era gente.
Não tenho saudades do meu pai, nunca deu um abraço ou um beijo, uma festa ou um elogio, e também não houve para retribuir. Nada, vazio! Saudades? Nenhumas! Pena? Muita, de não ter nenhuma.
Revelações, revelações vazias, sem sentido, porque nada disto faz algum sentido, só a emoção de se saber mal-amada numa família única na sua forma de ser família.
Referências? Sim! Muitas a não seguir, a evitar, para mostrar o que não fazer e talvez assim fazer a diferença, realçar os laços de família, a união, uma plataforma de amor incondicional que não se esgota nas conversas nem nas atitudes, mas no ar que se respira, nos alimentos que partilhamos, nas dores que sentimos, nas gargalhadas que só nós sabemos dar. E se isto não chegar… então não sei!