domingo, 11 de novembro de 2012

Old Friends/Bookends

Aniversário, Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)


No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

domingo, 4 de novembro de 2012

29



Vinte e nove anos de trabalho. Hoje. Se alguma vez pensei em ser professora, foi quando, ainda bem pequena, era boa aluna, apesar de não saber o que eram os  «devoirs» (daí que nunca os fizesse) e ter precisado de um esclarecimento por parte do avô Luiz, e quando dava abraços gigantescos à minha adorada «maîtresse» das 1ª e 2ª classes, numa época em que dar abraços significava ser graxista… Deixei, obviamente, de os dar, bem como de achar que alguma vez poderia enveredar por esse caminho, o da escola. Não me parecia que alguma vez encaixasse!
Não nasci com o rabo virado para a Lua e todas as minhas aprendizagens foram feitas depois de muito sofrimento, muitas cabeçadas, muitos desgostos. Havia aqueles para quem nada era difícil, eu precisei de muitos empurrões, explicações. Deixei muito rapidamente de ser boa aluna, nunca achei que me fizesse feliz, deixei andar até, finalmente, chumbar. Havia coisas bem mais importantes, os amigos, os fumos, as faltas às aulas, algumas pielas, os namoros, o desafiar a autoridade, viesse ela de onde viesse! Como é que alguém assim poderia alguma vez tornar-se numa professora? Mas aconteceu! Não havia outra saída profissional quando acabei a Fac, era a época dos «miniconcursos» e assim tornei-me paraquedista, como as nossas muito simpáticas colegas «definitivas» chamavam às provisórias.
Nessa altura, de facto, o Jaime até tinha razão: «Maria Helena, o que tu fazes para não ires trabalhar!» isto depois de eu ter sido atropelada em 88, grávida do Afonso! Mas tinha razão, o gosto era pouco, as imensas preocupações com a minha recém-formada família e o ordenado era o que me movia.
Mas foi exatamente a minha família que me ajudou a corrigir o meu percurso, o lema «não faças aos outros o que não queres que te façam a ti» bateu forte quando os meus filhos começaram a percorrer o mesmo caminho dos meus alunos. Se não tinha vocação, o espírito de missão, esse, sempre o tive. Também ódios de estimação e amores de perdição. Tem sido sempre assim, em tudo, na vida e na escola.
Este ano, aos vinte e nove, decidi que estava na altura de fazer uma pausa. Estou farta! Os últimos governos têm dado cabo da Escola, o ambiente que se criou nas escolas é insuportável! As intrigas, a maledicência, as invejas, as mentiras… A suposta avaliação de professores, isenta, objetiva, justa, arrasou os alicerces mal fundados de uma classe desunida, com diferentes níveis de formação e crivada de gente muito mal-formada que nunca deveria poder dizer que é professora.
As evidências deram cabo das aulas e das atividades feitas pelo prazer de fazer e de bem-fazer. De repente, quem faz, porque gosta de fazer e porque faz bem, só quer é «evidenciar-se», imagine-se! Se se faz uma festa de elevado nível, faz-se «para as elites», Publicamos um livro, «lá está ela a evidenciar-se!» Chega! Estou farta!
Adoro o que faço, cada vez mais! Onde me sinto bem é na sala de aula, não é na sala de professores! De quem eu gosto é dos alunos, não é dos colegas, apesar de ter duas muito queridas amigas e algumas queridas colegas. E dou abraços aos meus alunos, muitos, sem que eles corram o risco de serem chamados graxistas…
Por isso, neste dia de aniversário, sob o mau presságio de ver o modelo de escola alemão aplicado nos próximos tempos, correndo o risco de ver o 2º Ciclo desaparecer e com ele o meu trabalho, deixo aqui o meu muito especial agradecimento aos meus filhos, Inês, Afonso e Domingos que me fizeram ser melhor pessoa e melhor professora (apesar de o Domingos achar que eu dou notas boas demais…) e aos meus muito queridos alunos, aqueles que me fizeram crescer, chorar e amar o que faço, tantos deles meus amigos facebookianos, eles sabem bem quem são!