segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Os meus pedidos...



Que a Inês e o António sejam felizes
Que o Afonso seja feliz
que o Domingos o seja também,
foi sempre o que eu mais quis.
Que os velhotes se aguentem
e que o Vi fique bem.
Que a saúde não nos fuja
e o trabalho também não
e já agora, em Mafra,
que o Elísio ganhe a eleição!
Que o carro dure mais uns anos
e que o arranjo não me deixe tesa
era bom que as massas
fossem dando para a despesa!
E deixo o melhor para o fim:
que o amor da minha vida
continue a gostar de mim…


domingo, 30 de dezembro de 2012

Mário Quintana, Certezas

Não quero alguém que morra de amor por mim…
Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo,
quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim…
Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível…
E que esse momento será inesquecível..
Só quero que meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre…
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém…
e poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos,
que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras,
alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho…
Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons
sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente
importa, que é meu sentimento… e não brinque com ele.
E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca
cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.
Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter
forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe…
Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia,
e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos,
talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas…
Que a esperança nunca me pareça um “não” que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como “sim”.
Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder
dizer a alguém o quanto ele é especial e importante pra mim,
sem ter de me preocupar com terceiros…
Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.
Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão…
Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades e às pessoas,
que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim…
e que valeu a pena.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Mais um Natal com os primos...






segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Obrigada, Mário!


         Desta vez, o Afonso fez uma proposta unilateral e radical à porta da Fnac, e porque não um tablet para a velha? Yeah!
          Obrigada pelo almoço, pela companhia e por mais um inesperado e magnífico presente... de que os meus filhos abdicam em meu favor!






domingo, 11 de novembro de 2012

Old Friends/Bookends

Aniversário, Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)


No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

domingo, 4 de novembro de 2012

29



Vinte e nove anos de trabalho. Hoje. Se alguma vez pensei em ser professora, foi quando, ainda bem pequena, era boa aluna, apesar de não saber o que eram os  «devoirs» (daí que nunca os fizesse) e ter precisado de um esclarecimento por parte do avô Luiz, e quando dava abraços gigantescos à minha adorada «maîtresse» das 1ª e 2ª classes, numa época em que dar abraços significava ser graxista… Deixei, obviamente, de os dar, bem como de achar que alguma vez poderia enveredar por esse caminho, o da escola. Não me parecia que alguma vez encaixasse!
Não nasci com o rabo virado para a Lua e todas as minhas aprendizagens foram feitas depois de muito sofrimento, muitas cabeçadas, muitos desgostos. Havia aqueles para quem nada era difícil, eu precisei de muitos empurrões, explicações. Deixei muito rapidamente de ser boa aluna, nunca achei que me fizesse feliz, deixei andar até, finalmente, chumbar. Havia coisas bem mais importantes, os amigos, os fumos, as faltas às aulas, algumas pielas, os namoros, o desafiar a autoridade, viesse ela de onde viesse! Como é que alguém assim poderia alguma vez tornar-se numa professora? Mas aconteceu! Não havia outra saída profissional quando acabei a Fac, era a época dos «miniconcursos» e assim tornei-me paraquedista, como as nossas muito simpáticas colegas «definitivas» chamavam às provisórias.
Nessa altura, de facto, o Jaime até tinha razão: «Maria Helena, o que tu fazes para não ires trabalhar!» isto depois de eu ter sido atropelada em 88, grávida do Afonso! Mas tinha razão, o gosto era pouco, as imensas preocupações com a minha recém-formada família e o ordenado era o que me movia.
Mas foi exatamente a minha família que me ajudou a corrigir o meu percurso, o lema «não faças aos outros o que não queres que te façam a ti» bateu forte quando os meus filhos começaram a percorrer o mesmo caminho dos meus alunos. Se não tinha vocação, o espírito de missão, esse, sempre o tive. Também ódios de estimação e amores de perdição. Tem sido sempre assim, em tudo, na vida e na escola.
Este ano, aos vinte e nove, decidi que estava na altura de fazer uma pausa. Estou farta! Os últimos governos têm dado cabo da Escola, o ambiente que se criou nas escolas é insuportável! As intrigas, a maledicência, as invejas, as mentiras… A suposta avaliação de professores, isenta, objetiva, justa, arrasou os alicerces mal fundados de uma classe desunida, com diferentes níveis de formação e crivada de gente muito mal-formada que nunca deveria poder dizer que é professora.
As evidências deram cabo das aulas e das atividades feitas pelo prazer de fazer e de bem-fazer. De repente, quem faz, porque gosta de fazer e porque faz bem, só quer é «evidenciar-se», imagine-se! Se se faz uma festa de elevado nível, faz-se «para as elites», Publicamos um livro, «lá está ela a evidenciar-se!» Chega! Estou farta!
Adoro o que faço, cada vez mais! Onde me sinto bem é na sala de aula, não é na sala de professores! De quem eu gosto é dos alunos, não é dos colegas, apesar de ter duas muito queridas amigas e algumas queridas colegas. E dou abraços aos meus alunos, muitos, sem que eles corram o risco de serem chamados graxistas…
Por isso, neste dia de aniversário, sob o mau presságio de ver o modelo de escola alemão aplicado nos próximos tempos, correndo o risco de ver o 2º Ciclo desaparecer e com ele o meu trabalho, deixo aqui o meu muito especial agradecimento aos meus filhos, Inês, Afonso e Domingos que me fizeram ser melhor pessoa e melhor professora (apesar de o Domingos achar que eu dou notas boas demais…) e aos meus muito queridos alunos, aqueles que me fizeram crescer, chorar e amar o que faço, tantos deles meus amigos facebookianos, eles sabem bem quem são!

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Enviado pelo Armando!


O FUNERAL DOS NUMERAIS ORDINAIS

Foi um funeral bonito,
o que se seguiu à morte súbita
de Centésimo,
num programa matinal
da Televisão Nacional,
em que a locutora disse:
- Agora que chegámos ao cem programa,
perdão, ao programa cem...
Foi exactamente ao emendar-se,
que a douta, culta senhora
fez Centésimo cair redondo.
Para sempre.
E é claro,
como os numerais vivem todos
que nem peças de dominó
em pé e juntinhas,
Centésimo arrastou todos os seguintes.
Os ordinais assim extintos pela locutora
continuam e continuarão a tombar,
eternidade fora,
já que,
despidos da sua função,
coitados,
não servem para nada.
Os anteriores ao saudoso Centésimo,
que Gramática também chora,
vão definhando
e não deverão ter
destino diferente.
Já há muito que os ordinais
vinham sofrendo ataques.
Não se sabe ao certo quando
nem por quem,
mas entraram em extinção
nos finais do século XX,
sobretudo por acção
de apresentadores
e jornalistas das televisões
- desportivos e não só -
além de alguns tradutores.
Deram todos, às tantas,
em dizer antes “jornada três”,
“jogo dois
do campeonato vinte e quatro”,
“o ano quinhentos
da chegada de Cristóvão Colombo à América”,
“o minuto oitenta e nove do jogo”,
etc...
Não admira, por isso,
que já depois
da morte de Centésimo,
aquando da inauguração
de uns Jogos Olímpicos,
um comentador da cerimónia de abertura
tenha às tantas dito
que os jogos eram
os vinte e oito;
e os comentadores da ginástica,
não terem parado,
irritantemente,
de falar
na competição dois,
no concurso quatro,
na classificativa três, etc.
Custará assim tanto dizer
Primeiro,
Segundo,
Terceiro
e por aí fora?
Mas se calhar é no “por aí fora”
que está o busílis:
saberão dizer,
por exemplo,
quingentésimo,
em vez do quinhentésimo
que saiu da boca
da narradora dum documentário
sobre a chegada de Colombo à América?
O funeral de Centésimo
foi bonito,
mas infelizmente muito concorrido.
Infelizmente...
Dada a grande afluência
de palavras e expressões em extinção,
para não se referirem
- para já –
outros males
que fazem perigar a Gramática
e, por conseguinte,
a Língua Portuguesa.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Baptizado Costa Santos Martins Vaz, 1958

domingo, 30 de setembro de 2012

Amigos do peito

Todo dia eu volto da escola
com a Ana Lúcia da esquina.
Da esquina não é sobrenome,
é o endereço da menina.


O irmão dela é mais velho
e mesmo assim é meu amigo.
Sempre depois do almoço,
ele joga bola comigo.

Já o Carlos Alberto, do lado,
(do lado não é nome também)
tem uma bicicleta legal,
mas não empresta pra ninguém.

O bairro onde moro é assim,
tem gente de tudo que é jeito.
Pessoas que são muito chatas,
e um monte de amigos do peito:

o Bruno do prédio da frente,
o Ricardo do sétimo andar,
o irmão da Lúcia da esquina,
o filho do dono do bar.

O nome completo deles
eu nunca sei, ou esqueço.
Amigo não tem sobrenome:
amigo tem endereço.

Cláudio Thebas

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Súplica


Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

Miguel Torga

domingo, 23 de setembro de 2012

Twix

 
Posted by Picasa

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Lana Del Rey - Summertime Sadness

terça-feira, 7 de agosto de 2012

70 anos! Caetano Veloso

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Para ler... Uma resposta bem dada e à medida de quem escreve!


Teolinda Gersão – uma das nossas melhores escritoras por quem tenho admiração e amizade – escreveu "Redacção - Declaração de Amor à Língua Portuguesa". A leitura deste texto desagradou-me de tal modo que cheguei a julgar tratar-se de uma brincadeira da autora sob a forma de uma crítica sarcástica ao ensino do português.

Mas como nem todas as pessoas a entendem assim, pus-me algumas perguntas: A quem se dirige esta brincadeira? Aos autores do programa de português na parte que diz respeito à gramática? Aos manuais de que se servem os professores, que podem conter erros por não haver a certificação de correção e qualidade, decidida há uns anos e não implementada? E já que o artigo assenta nas “ideias” de um estudante, será que o que está em causa é um professor que não conhece o que ensina?
Uma escritora do nível da Teolinda Gersão não pode aceitar como bons todos os disparates que lhe são transmitidos pelo seu neto estudante. Existem materiais de fácil acesso para refutar o que considera asneira. Já conhece o Programa de Português do Ensino Básico? Já viu os materiais que podem ser consultados pelos professores (ou pelos pais/avós) para perceber como e porquê se analisa uma língua, como se adequa esse ensino ao nível de escolaridade, o que deve ser transmitido em cada ano e o que serve apenas para informação do professor? Já pensou em como uma explicação da construção de um texto ou frase que o aluno produz ajuda a desenvolver o seu raciocínio e aumenta o seu domínio da oralidade e da escrita?
Os alunos não são tolos e têm curiosidade pelo ensino de qualquer disciplina se forem estimulados a olhar crítica e criativamente o que está por detrás das suas produções linguísticas e artísticas e dos mistérios da natureza. É nisto que consiste a educação. Mas o que verdadeiramente os desestimula é que alguém, que tem responsabilidade na escrita de uma língua, diga que “vai deitar a gramática na retrete “ (as palavras são da escritora mas “as ideias são deles”). Considera a Teolinda que não vale a pena estudar gramática? E aprender a fazer operações de matemática ou conhecer a física nas suas diversas forças e energias já vale a pena? Preparar materiais para o ensino do português tem sido o trabalho criterioso e dedicado de equipas, tal como tem sido feito para a matemática e para as ciências. Todas estas áreas têm tido a sua atualização didática e implicam uma adaptação a novos conhecimentos por parte dos agentes de ensino. E se um professor não sabe como explicar a construção das frases, do texto, da entoação e sons com que se constrói esta maravilha que é uma língua, é absurdo assacar ao ensino da língua materna erros, dislates e desinteresse que sente um estudante que julga que aprender português é só ter lido alguns livros (quando o faz) e não dar erros de ortografia. Deste modo, ele nem sequer vai tomar consciência da razão por que um texto literário é melhor do que outro, ou por que uma instrução ou uma lei pode ser ou não ser ambígua. Uma generalização da inutilidade e dos erros do ensino do português, apresentada a sério ou a brincar, apenas mostra uma completa falta de respeito pelos agentes desse ensino e por todos os que têm trabalhado nesta área. E de certeza que não se trata de uma “declaração de amor”, visto que o amor procura e proclama os aspetos bons do objeto amado.
Não desejo discutir aqui os exemplos dados pela autora do artigo porque eles têm tanto de errado como de ridículo. Aconselho somente uma consulta do Programa de Português do Ensino Básico e, já que tem uma completa falta de conhecimentos de gramática, poderia também consultar o Dicionário Terminológico destinado aos professores (e não aos alunos). Dessa maneira ajudaria mais um estudante do que tornando pública uma atitude que não é, certamente, recomendável num educador.

Maria Helena Mira Mateus
Professora Catedrática Jubilada da Faculdade de Letras de Lisboa
28 de junho de 2012

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Notas soltas, em final de ano letivo:



Não gosto de pessoas tacanhas provincianas, detentoras dos pequenos poderes, são elas que nos deitam abaixo, porque é a única forma de se afirmarem e de se sentirem poderosas; destroem todo um trabalho de anos com a deselegância que a tacanhez lhes confere, convencidas de que assim é que é, à sua maneira, com o pouco, mas devastador, poder que detêm, só porque os que não estão com elas estarão, forçosamente, contra elas; não gosto de gente má, que fala nas costas, que denigre a imagem de quem dá o seu melhor, de quem serve os outros, de quem trabalha, de facto; não gosto de gente falsa que se apropria do que é de todos, porque é simplesmente pobre de espírito sem direito ao reino dos Céus, porque inferniza enquanto está na Terra
Para terminar, fiquei feliz com os resultados da maioria dos meus alunos, nesta primeira vez que fizeram um exame. Os que sempre trabalharam e estudaram viram o seu esforço recompensado, os que nunca entenderam que temos de trabalhar viram confirmado o seu insucesso, parte dele é meu também. Mas, felizmente, há uma Carlota e uma Cláudia que mostraram a todos como se consegue superar as dificuldades com muito esforço e para elas vai um enorme beijinho de parabéns: ficaram no patamar do Bom ao lado daqueles que sempre as olharam de esguelha!  
E assim termina mais um ano letivo, cheio de deceções, de desilusões, de maldades, de intrigas e maledicências, mas também, felizmente, recheado de sucessos e experiências novas e gratificantes que deixaram, definitivamente, marcas profundas nas nossas vidas.


Gabriel Garcia Marquez

«(...) Meu Deus, se eu tivesse um pouco mais de vida, não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas de quem gosto que gosto delas. (...)»

terça-feira, 12 de junho de 2012

Sou alfacinha, meu rico Santo António!

SANTO ANTÓNIO

Nasci exactamente no teu dia —
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.

(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
Mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João...
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adiante ... Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração —
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera...
Mas qual de nós vai tomar isso à letra?
Que de hoje em diante quem o diz se digne
Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.

Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a vêem, de olhar só os ramos.
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.

Qual Santo António! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.

Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não concertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instinto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro título de glória,
Que nada em nossa vida dá ou traz
É haver sido tais quando aqui andámos,
Bons, justos, naturais em singeleza, Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que há na certeza,
O amante a quem ama,
E o faz um velho amante sempre novo.
Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto: é teu amigo,
Ó eterno rapaz.

(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm beleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real, por mal ou bem,
Que coisas, ou não coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arraste
Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nulidade, a que se chama história,
Que foste tu, ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.

És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retrato, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até que já te vi.

És este, e este és tu, e o povo é teu —
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vai alta a lua
Num plácido e legítimo recorte,
Atira risos naturais à morte,
E cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando de Bulhões,
Foste Frei António —
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?
Fernando Pessoa: Santo António, São João, São Pedro. Fernando Pessoa.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Teolinda Gersão e os exames de Português

Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles.

11-06-2012
Redacção – Declaração de Amor à Língua Portuguesa
Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia “ele está em casa”, ”em casa” era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito.”O Quim está na retrete” : “na retrete” é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos “ela é bonita”. Bonita é uma característica dela, mas “na retrete” é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.
No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um “complemento oblíquo”. Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo “complemento oblíquo”, já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, ”algumas” é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.
No ano passado se disséssemos “O Zé não foi ao Porto”, era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.
No ano passado, se disséssemos “A rapariga entrou em casa. Abriu a janela”, o sujeito de “abriu a janela” era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço?
A professora também anda aflita. Pelo vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em “ampa”, isso mesmo, claro.)
Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.
E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impor a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.
E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.
João Abelhudo, 8º ano, turma C (c de c…r…o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).
Teolinda Gersão, junho, 2012

domingo, 3 de junho de 2012

E mais um veterinário!


Ver animais vou fazer
E muitos deles ajudar
Também tenho o meu cão
E a ele também vou ajudar
Respeitado vou ser
Internacionalmente e
Nacionalmente
Andarei por todo o lado a
Rir e a trabalhar…
Imagino-me muito conhecido
ocupando o melhor lugar

José Luís Leal da Costa                                                                                                                                                             
5ºG

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Mais uma pediatra!

Para crianças tratar,
Estou sempre disponível,
Dar e receber.
Injeções vou ter que dar,
A ver bebés a chorar,
Tenho que os tratar,
Ralhar não vou fazer,
A brincar não quero ser.


Ana Margarida Coelho

Ha, ha, ha!


O lobo e o cordeirinho

Era uma vez
um lobo maltês,
no entanto era bonzinho
só para um cordeirinho,
contudo a única coisa
que lhe interessava
era a carne
que o pobre bicho transportava.

O cordeirinho aprecebeu-se
das intenções do lobo,
mas não fugiu
porque decidiu,
que a vingança
é um prato que se serve frio.

Porém não foi o maior que ganhou,
foi o mais pequeno que se safou,
e com duas facadas a história acabou.


 Filipe Zambujo nº 8
                                                                                                         
 Filipe Barradas nº 9

  6ºB